Cuidar de si para cuidar do negócio

Buscar ajuda é uma competência de gestão, e, segundo especialista, a dor emocional do empreendedor aumenta quando ele tenta resolver tudo sozinho

Medo de falhar, sentimento de inadequação, questionamentos como “será que eu dou conta?”, pressão interna por resultados, dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional e – talvez a maior delas – a sensação de solidão: estas são as dores da alma de empreendedores, não importa o tamanho do negócio.

O cuidado com a saúde mental é um tema cada vez mais debatido no universo dos donos de negócios, mas da teoria à prática há muitos desafios, segundo a psicóloga Fátima Macedo, especialista em saúde mental do trabalhador, palestrante e CEO da Mental Clean, empresa de Psicologia aplicada à saúde mental corporativa. A prevenção é rara.

“Na sua grande maioria, podemos considerar que os empreendedores ainda buscam o cuidado de forma remediativa, quando os sinais já estão se tornando sintomas ou mesmo quando o adoecimento emocional já está instalado”, afirma ela, para quem o cuidado e a manutenção da saúde mental são uma jornada diária. “Existe sim uma maior preocupação, mas ainda esbarra na ação, o cuidado não se tornou um hábito”, sintetiza ela.

O pequeno e o médio empreendedor, até se estabelecer, sofre pelo medo constante de não sobreviver, com recursos escassos e muita ansiedade em um dia a dia incerto. Como agravantes, há sobrecarga por realizar diversos papéis e autocobranças.

A rotina intensa e a sobrecarga de responsabilidades podem levar, sim, a um esgotamento mental, emocional e físico, que pode afetar profundamente a saúde e a capacidade de cuidar do negócio.

O ponto é que desafios emocionais se refletem no dia a dia do próprio negócio: dificuldade de gerenciar o tempo, de planejar questões mais estratégicas e de organizar o local de trabalho, problemas financeiros e de relacionamento com funcionários, clientes e fornecedores, perda de prazos e decisões impulsivas.

“Esse impacto pode ser decorrente de um quadro depressivo, em que a pessoa não tem energia, sua capacidade de resolução de problemas está comprometida, gerando um grande desconforto emocional que muitas vezes não é possível descrever em palavras”, comenta Fátima.

Para a especialista, o autocuidado tem que estar na agenda diária do empreendedor, assim como qualquer outro compromisso. É preciso disciplina. “Não é tarefa simples, pois é uma agenda que compete com tudo e todos, sendo muito comum ficar em último plano”, reconhece ela. Os empreendedores precisam se conscientizar de que sua saúde vai se refletir na forma como se enxerga o negócio. “Quando a mente e o emocional estão sobrecarregados, tudo ao redor também fica”, observa Fátima. “Quando a gente não cuida da raiz do problema, as coisas se acumulam e pode vir aquela sensação de perda de controle”, alerta.

“Ainda estamos no início do caminho para que empreendedores de todos os tamanhos entendam a importância do cuidado com a saúde mental e o quanto este investimento se traduz em um resultado mais sustentável para seu negócio. E, com isso, comecem a levar mais a sério o cuidado. Com ele e com seu time” – Fátima Macedo, psicóloga especialista em saúde mental do trabalhador, palestrante e CEO da Mental Clean, empresa pioneira em Psicologia aplicada à saúde mental corporativa no Brasil.

Como proteger sua saúde mental

Segundo a psicóloga Fátima Macedo, especialista em saúde mental no ambiente corporativo, cuidar da saúde mental é uma escolha diária e que pode ser conquistada com pequenos e constantes passos. A constância do cuidado é o que irá determinar o resultado, e o autoconhecimento tem um peso muito grande nesse processo. O compromisso com a saúde integral precisa estar no mesmo nível de prioridade do compromisso com seu negócio. “O maior fator de adoecimento do empreendedor é acreditar que tudo depende dele, principalmente no caso das mulheres”, observa.

Para proteger a saúde mental é preciso:

  • Aprender a delegar e confiar. Não adianta ficar preso na ideia de que ele faria melhor;
  • Ficar atento ao estado emocional por meio de um check-in diário: “Como estou iniciando meu dia hoje?”, “O que mais me preocupa e o que pode me ajudar a resolver isso?”, “Com quem posso contar?”;
  • Entender que preocupação, expectativa, inquietude, espera e medo são diferentes de ansiedade. Este ajuste de palavras é muito importante. Repetir para si que está sentindo ansiedade aumenta o desconforto. Por isso, distinguir sentimento de sintoma é fundamental;
  • Construir uma rotina ajuda a diminuir a ansiedade, porque reduz a imprevisibilidade;
  • Estabelecer limites em relação à quantidade de horas trabalhadas e separar tempo para família, descanso e lazer fazem toda diferença;
  • Sair do automatismo. É preciso autoconsciência e presença para se cuidar.

Adoece quem não consegue se regular emocionalmente. Assim, o dono de negócio precisa:

  • Reconhecer rapidamente quando está no limite (sintomas como insônia, irritabilidade, ruminação, decisões impulsivas, baixa concentração);
  • Ter espaço de fala sem julgamento: mentoria, terapia, grupos de empreendedores, supervisão;
  • Praticar micropausas de 60 segundos durante o dia: regulação autonômica reduz estresse tóxico;
  • Trabalhar sua identidade. Quando a identidade vira “eu sou a empresa”, a pessoa entra em colapso junto com qualquer problema. Para evitar isso, deve-se manter pelo menos um papel fora do trabalho (qualquer coisa que o lembre de quem ele é além do CNPJ), construir autoestima fora do resultado da empresa;
  • Cuidar dos vínculos (relacionamentos blindam contra o burnout) e monitorar indicadores pessoais como sono, humor, energia, motivação, concentração, qualidade das relações e irritabilidade. O corpo avisa antes da mente;
  • Manter contabilidade e jurídico estruturados, pois organização e segurança reduzem ruminação;
  • Criar rede de apoio com outros empreendedores; a troca reduz a sensação de solidão;
  • Priorizar sono de qualidade, alimentação minimamente equilibrada e movimento diário (curto, mas constante), além de colocar limites reais para consumo de álcool e estimulantes.

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