EPTC estuda restrição a caminhões no Centro Histórico da Capital

Proposta inicial prevê proibição do trânsito de veículos com peso superior a 4,5 toneladas e com comprimento acima de 7 metros das 7h às 20h entre segunda e sextas-feiras e das 7h às 14h aos sábados

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Proposta inicial prevê proibição do trânsito de veículos com peso superior a 4,5 toneladas e com comprimento acima de 7 metros das 7h às 20h entre segunda e sextas-feiras e das 7h às 14h aos sábados

A restrição de circulação de caminhões de grande porte no Centro de Porto Alegre, em estudo pela Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), vem causando muita dor de cabeça em lojistas e transportadores. A intenção da prefeitura é criar um sistema de carga e descarga prevendo locais, normas e horários diferenciados para fortalecer as atividades comerciais, de serviços, culturais e institucionais realizadas na área central de Porto Alegre.

Segundo a gerente de planejamento de trânsito e circulação da EPTC, Carla Meinecke, a ideia faz parte de uma série de ações que a prefeitura vem adotando para reabilitar o Centro Histórico da Capital gaúcha.
A proposta inicial prevê a proibição do trânsito de veículos com peso acima de 4,5 toneladas e comprimento superior a 7 metros de segundas a sextas-feiras das 7h às 20h e aos sábados das 7h às 14h, no Centro Histórico. A área é delimitada pelas avenidas Mauá, Siqueira Campos e Júlio de Castilhos, Primeira Perimetral e rua da Conceição.

Veículos prestadores de serviços de utilidade pública – ambulâncias, guinchos, veículos destinados ao socorro mecânico e para transporte de valores – não seriam enquadrados na regra. Já caminhões de mudança, de transporte de concreto, de cargas especiais e os que efetuam abastecimento de gás a granel, precisariam de autorização especial, fornecida pela EPTC com rota e horário especificado.

Apesar de essenciais à distribuição de bens e mercadorias, de acordo com a EPTC, os caminhões de grande porte estariam causando impactos negativos à fluidez do trânsito e ao ambiente, o que justifica a medida restritiva. O prejuízo à fluidez do trânsito ocorre em função da lentidão das manobras de caminhões de grande porte, pelo próprio espaço que os veículos ocupam na via e pela dificuldade que têm de se movimentar em ruas com aclives. Além disso, a remoção e a mobilidade nas ruas são mais difíceis em caso de acidentes. No aspecto ambiental, de acordo com a avaliação da prefeitura, os caminhões provocam poluição, barulho, vibrações e trepidações que prejudicam as construções mais antigas do Centro Histórico, deterioram o pavimento e obstruem o visual.

A tendência, segundo dados levantados pela EPTC, é que em regiões centrais, a exemplo das restrições implantadas em São Paulo e outras capitais, os grandes caminhões sejam substituídos por veículos menores, mais leves e mais fáceis de manobrar. Por consequência, serão utilizados veículos com menor capacidade de carga.

Atualmente, existem 115 pontos de carga e descarga no Centro de Porto Alegre, totalizando três mil metros de área em vias públicas destinadas as estas operações, conforme diagnóstico da EPTC, inexistindo restrições quanto ao comprimento ou capacidade de carga dos veículos. A empresa pública de transportes não possui um levantamento preciso sobre a quantidade de caminhões de grande porte que trafegam diariamente pelo Centro. Mas, conforme dados amostrais levantados pelo órgão, na comparação entre a frequência de caminhões de diferentes tamanhos, o predomínio é de veículos com capacidade de 5,9 toneladas.

O objetivo da EPTC, destaca Carla, é muito mais administrar melhor o trânsito do que criar uma restrição. “Antes de chegarmos a uma proposta final queremos debater com os transportadores e lojistas para encontrarmos a melhor solução. Já temos uma reunião marcada para o dia cinco de outubro para discutirmos a norma”, afirma Carla.

Sindilojas tem esperança na negociação de uma outra proposta mais adequada

Os lojistas do Centro de Porto Alegre não escondem a preocupação com a nova regra que pode ser implantada. Para o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre (Sindilojas), Ronaldo Sielichow, falta conhecimento para quem está elaborando o decreto que restringe a entrada de caminhões grandes no Centro. “Temos lojas de materiais de construção na região que recebem tubos de seis metros de comprimento. Como estas mercadorias vão chegar aos lojistas?”, questiona. Ele destaca que com a proibição da circulação dos caminhões grandes, vai aumentar muito o número de veículos menores, o que pode congestionar ainda mais o trânsito.

Acontecem muitas irregularidades no trânsito do Centro que poderiam ser evitadas se houvesse mais fiscalização, segundo Sielichow. Para ele, a restrição dos caminhões de grande porte é muito radical, até por questão de segurança dos comerciantes. “O proprietário de uma pequena empresa ou loja não tem como deixar um funcionário à noite de plantão esperando por mercadorias. Não só pelo custo que implicaria, mas pela segurança. E muitas lojas encerram as atividades às 18h30min”.

Em Porto Alegre há 16 mil estabelecimentos comerciais e deste total, cerca de 30% estão localizados no Centro. Afora bares, restaurantes e hotéis, que também recebem produtos e mercadorias de transportadoras. Mas, o presidente do Sindilojas se diz otimista quanto à formulação de uma nova proposta. “Vamos nos reunir com a EPTC para discutir e desenhar outra proposta. Estamos otimistas de que com essa possibilidade de diálogo seja definida uma medida mais adequada”, comemora. “Antes desta reunião vamos nos reunir com os lojistas para ouvi-los e elaborar uma proposta”, afirma.

O proprietário da Multi Ferragem, localizada no Centro, o empresário Paulo Penna Rey, escuta as notícias sobre a restrição do trânsito de caminhões com certo temor. Há 17 anos comercializando materiais de construção como cimento, tintas e tubos e conexões, Rey não vê a medida como solução e está preocupada com o reflexo no preço dos fretes. A loja normalmente recebe mercadorias de quatro a cinco vezes por semana. E o tempo que cada veículo leva fazendo a descarga é de 30 minutos. “Hoje já procuramos fazer este transporte nos horários com menor fluxo de veículos. Pela manhã até as 10h e à tarde depois das 16h. Acho que a intenção de adotar a restrição para caminhões é uma afobação. Temos que sentar e achar um alternativa mais viável”, afirma Rey.

Para o lojista Antônio Carlos Souza Gomes, proprietário das lojas Maria da Praia e Thithãs deveria haver mais fiscalização sobre carros particulares que, em sua opinião, estacionam em locais indevidos. Ou onde são permitidos, os motoristas excedem o tempo regulamentar e não são multados. Para Gomes, se a fiscalização fosse mais intensa, todos saíram ganhando. Ele cita como modelo a rua Independência, em São Leopoldo. “Lá os carros estacionam na rua, mas há rotatividade, pois se os condutores não respeitam o limite de tempo autorizado , são penalizados”, destaca.

Setcergs considera modismo ações contra circulação

A implantação de normas que restringem a circulação de caminhões nas áreas centrais das grandes cidades, na opinião do presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas e Logística no Estado do Rio Grande do Sul (Setcergs) José Carlos Silvano, é um modismo, o que não quer dizer que a medida seja a mais eficiente para aquilo a que ela se propõe. “O impacto da implantação desta regra é muito alto. As restrições implementadas no estado de São Paulo representaram para a Ambev um custo a mais que supera os R$ 4 milhões”, exemplifica Silvano. “O que a empresa vai fazer com aqueles caminhões grandes que ela utiliza até o momento? Vai se desfazer e comprar veículos menores? Acho que não se pode mudar uma estrutura de uma hora para outra”, destaca Silvano.

Ele lembra, também, que para cada caminhão grande retirado do sistema de transporte, seriam necessários de dois a quatro caminhões pequenos para dar conta da mesma quantidade de carga. “Isso significa multiplicar o número de motoristas e ajudantes na mesma proporção, o que tornará o custo para o consumidor final muito elevado. Além disso, em vez de ter um caminhão circulando no Centro da cidade, teremos quatro veículos. Mais trânsito, e muito mais emissão de gases poluentes”, afirma Silvano.

Para o presidente do Setcergs, antes de qualquer mudança é preciso abrir um canal de diálogo com todos os envolvidos no processo. E se alguma norma restritiva tiver de ser implantada, primeiro deve ser aplicada aos automóveis e não aos caminhões que, em sua opinião, são semelhantes ao transporte coletivo, pois prestam um serviço à população, não são veículos de transporte individual. Para que os caminhões não tenham necessidade de passar muito tempo circulando para conseguir descarregar as mercadorias, a proposta do Setcergs é que os pontos de carga e descarga no Centro Histórico sejam ampliados dos atuais 115 para 230. “Para isso, bastaria tirar os parquímetros de alguns locais e destinar o espaço para os caminhões.” Silvano também defende que se houver mais austeridade na fiscalização dos veículos que estacionam nas áreas destinadas a carga e descarga já haveria uma melhoria considerável no fluxo do trânsito.

Para Silvano, o sistema de logística da cidade deve ser pensado como um todo. “A Estação Rodoviário de Porto Alegre está mal localizada”, justifica. “Ela deveria ficar ao lado do Aeroporto Internacional Salgado Filho, para criar a possibilidade de intermodalidade e para desafogar a entrada e a saída do Centro”, propõe. O projeto Portais da Cidade, que prevê a transferência dos terminais de ônibus do Centro para outros cinco locais de onde sairiam linhas circulares que passariam pela região central, seria uma outra alternativa para desafogar o trânsito na região central, segundo Silvano. “Aceitamos restringir o uso de caminhões em áreas íngremes, assim como o uso de bitrens. Mas, nos demais casos, é preciso que seja feito um estudo profundo, que realmente comprove que a retirada dos caminhões do Centro vai ser crucial para a melhoria do trânsito, antes que a norma seja colocada em prática”, completa Silvano.

Para o presidente do Porto Seco de Porto Alegre, Afrânio Kieling, apenas restringir o acesso de caminhões grandes ao Centro Histórico é uma medida muito simplória. “Não somos contrários à implantação de regras para melhorar a fluidez do trânsito, mas não desta maneira. Acreditamos que deva haver um planejamento maior, pois a sistemática é muito complexa”, afirma Kieling.

Para ele, as ações devem ser anteriores, como quando é construído um shopping ou aberta uma concessionária. No, primeiro caso, é preciso que o projeto contemple áreas com docas que não atrapalhem o tráfego dos veículos. No caso das concessionárias, também. É preciso que a empresa, ao abrir uma unidade, reserve uma área para a descarga dos carros. “O culpado por atrapalhar o trânsito não é o cegonheiro que transporta os carros. Na hora de erguer o prédio já deveria ser exigida a reserva de um espaço para a descarga”, diz Kieling. Para ele, uma das alternativas que podem ser adotadas no Centro é utilizar a área do cais do porto para carga e descarga. De lá, as mercadorias seriam levadas até as lojas em carrinhos elétricos.

Medidas mal planejadas podem acabar desencadeando outros problemas e conflitos, como é o caso do que está acontecendo em São Paulo. “A Associação de Moradores quer que seja proibida a entrada de caminhões na rua Giovanni Gronchi, no Morumbi. Pois, com a proibição da circulação de caminhões nas vias principais, os transportadores passaram as usar as vias arteriais, que não têm capacidade e estão causando problemas para os moradores. Por isso, tudo tem que ser muito bem pensado”, exemplifica Kieling. “A discussão é sobre mobilidade urbana, que atinge a todos de uma forma geral”. “Quando foi criado o Porto Seco, solicitamos que fosse construído o acesso Norte. Já se passaram 20 anos, a cidade cresceu, estamos rodeados de bairros e vilas que foram transferidos para a redondeza. Daqui a pouco vão dizer que estamos atrapalhando a vivência dos moradores, pois até hoje o acesso Norte não foi construído”, desabafa Kieling.

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