Se a jornada de trabalho diminuir, os preços dos produtos aumentarão, alerta o Sindilojas

Em entrevista ao Sul21, o presidente do Sindilojas POA — Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre — , Ronaldo Sielichow, revelou que 2010 foi um grande ano para o comércio. Acompanhado de seu…

Em entrevista ao Sul21, o presidente do Sindilojas POA — Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre — , Ronaldo Sielichow, revelou que 2010 foi um grande ano para o comércio. Acompanhado de seu vice, Paulo Kruse, Sielichow falou sobre a necessidade de uma reforma tributária, garantiu que o Centro de Porto Algre está mais seguro e, em consequência, os lojistas vendem mais e alertou que se a jornada de trabalho dos comerciários encolher, o consumidor pagará por isso.

O Sindilojas, fundado em 1937, é o representante legal de 16 mil comerciantes porto-alegrenses. Além de atuar como representante do setor lojista, o Sindilojas POA desenvolve parcerias com diversas instituições públicas e privadas no sentido de desenvolver ações visando a expansão do setor.

Sul21: Como o ano de 2010 tratou o comércio de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul?

Ronaldo Sielichow: 2010 foi um ano muito bom. Pode-se dizer que o lojista, de uma forma geral, ficou muito satisfeito. Tivemos o melhor Natal dos últimos anos.

Paulo Kruse: Foi o melhor Natal desde 2003.

RS: Esse desempenho positivo ocorreu não apenas pelo acesso ao crédito, mas pela melhor distribuição de renda, por melhores dissídios, mas pelo emprego, que retornou ao melhor nível dos últimos 15 anos. Todos estes fatores – pessoas empregadas consomem mais – contribuíram para termos um melhor desempenho. Mas eu acredito que a questão do crédito foi fundamental. As compras são muitas vezes baseadas na emoção, tanto que os melhores períodos para os lojistas são o Dia das Mães, dos Namorados e o Natal. E com o crédito há maior facilidade. Com ele, além do consumo diário, o consumidor não deixou de dar, por exemplo, um presente para uma pessoa querida pelo fato de não ter dinheiro no bolso. Com crédito em abundância, ficou também mais fácil fazer as prestações se encaixarem no salário. 2010 foi um ano em que todas as formas de pagamento foram utilizadas: financiamento direto da loja, carnê, cartão de crédito, cheque pré-datado, etc. Foi um bom ano.

PK: Um outro aspecto que favoreceu muito é que os preços de muitos produtos caíram. Com o aumento do volume de vendas, o comércio pode diminuir sua margem, com o consequente barateamento. Da mesma forma, a expansão do comércio torna a concorrência mais acirrada, isso também força os preços para baixo.

“A queda do dólar é um fator positivo, porque muitas empresas importam produtos para venda”

Sul21 E a queda do dólar?

PK: A queda do dólar, que tanto preocupa o governo, também nos favorece. Os preços no exterior ficam mais baixos.

RS: É claro. Para quem trabalha com produtos importados é bom. A área de brinquedos, por exemplo, fica mais aquecida. Porém, cresce a evasão. Muita gente aqui do Sul vai buscar produtos em Rivera e Rio Branco, na fronteira, porque o dólar está barato. E, apesar do consumidor fazer um passeio e gastar dentro do estado, o grosso das compras é feito do outro lado. Mas, de um modo geral, a queda do dólar é um fator positivo, porque muitas empresas importam produtos para venda.

Sul21: E as perspectivas para 2011, com as novas restrições ao crédito pelo temor do aumento da inflação?

RS: 2011 tem de ser encarado com cautela. Afinal, mudou o governo estadual, federal, o presidente do Banco Central, etc. Começamos bem, mas temos que aguardar mais um pouco para avaliar. Em contrapartida, nós tivemos uma política recente que deu certo. Nós efetivamente tivemos o acesso dos excluídos, a geração de empregos e o crédito, do qual já falei. Mesmo que o governo fale em restringir o crédito para deter o regresso da inflação, o “embalo” é este mesmo, o conceito está bom. E, além disso, o povo vai se acostumando ao direito de consumir, vai aprendendo a analisar o que vai comprar, a conhecer as marcas, etc. Tal postura vai formando uma nova cultura. O pessoal que não tinha alguns bens de consumo agora não vai mais querer ficar sem. Esse acesso é irreversível.

“Não haverá financiamentos longos para bens de maior valor, mas o crédito da roupa, da TV, da geladeira, será mantido”

Sul21: Mas onde as restrições ao crédito devem afetar o comércio?

RS: Eu acho que não haverá mais os financiamentos longos para bens de maior valor. As lojas de automóveis terão de fazer parcelamentos menores. Mas o crédito da roupa, da TV, da geladeira, será mantido. O próprio material de construção deve continuar bem vendido.

Sul21: E como o consumo se divide entre as classes sociais?

RS: Houve uma pesquisa do Instituto para Desenvolvimento do Varejo (IDV) que demonstrou como nossa sociedade está evoluindo. Havia questionamentos para diversas classes e, curiosamente, o sujeito da Classe A respondia que não era rico. Então, era feita a mesma pergunta para um cidadão da Classe D, que ganha aproximadamente R$ 1.500,00 e este respondia que, sim, era rico. Claro, ele nunca teve carro, TV e geladeira mais ou menos novos, nunca comeu carne com frequência, então, sente-se rico! Mudou opadrão de sua classe, correto?

Sul21: O comércio é tido como conservador e “de direita”. Vocês demonstram aprovar este governo “de esquerda”…

RS: Não chego a concordar contigo, mas tivemos um presidente sindicalista e somos um sindicato. Talvez várias preocupações e políticas sejam comuns. Mas há problemas. Nossa base é feita de pequenos e médios comerciantes e o governo parece considerar que todos nós somos grandes, sólidos e percebemos altos lucros. Nós temos dificuldades. A questão tributária é grave. Nós pagamos impostos no momento da compra. A Substituição Tributária faz com que o comerciante pague o imposto no momento em que o produto sai do fabricante. E, pior, sai como se nós tivéssemos vendido com uma margem de lucro bem maior do que a que podemos praticar. O governo parece ver em nós todos lojas como a Renner, a C&A e a Paquetá, mas nós somos em esmagadora maioria pequenos e médios empresários. Esta é uma visão equivocada. O governo não enxerga que suas políticas privilegiam os grandes empresários.

“Como comerciante, pago imposto até sobre aquilo que não vendo”

Sul21: Há promessa de analisar alterações na Substituição Tributária?

RS: Isto funciona desta forma por causa da sonegação e da falta de pessoal para fiscalizar o comércio. O ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) deveria ser pago no momento da venda, pois é um imposto sobre circulação. Porém, o comerciante antecipa um imposto que deveria pagar depois. Ou seja, a fábrica nos cobra na venda. Então, imagine que o comerciante estrague algum produto comprado. Neste caso, ou ele comprova que não vendeu — caso em que enfrentará uma enorme burocracia — ou deixa assim. Outro caso: se a data de validade expira e ele não pode mais vender o produto. Também neste caso o imposto fica lá no governo, pago. É um adiantamento que o comerciante faz para que a fiscalização fique mais simples. Eu, como comerciante, nunca peço ressarcimento, então pago imposto até sobre aquilo que não vendo. O governador Tarso Genro comprometeu-se em analisar esta situação. Nós reivindicamos revisão principalmente para as empresas optantes pelo simples.

Se a jornada de trabalho diminuir, isso se transformará em aumento de preços

Sul21: E a relação com o Sindicato dos Comerciários?

RS: É, não adianta aplaudir propostas de 36 horas ou 40 horas de trabalho semanais para os comerciários. Isso vai se refletir no custo dos produtos. Quem pagará será o consumidor final. Não podemos concordar com esses projetos. O horário das lojas dos shoppings e mesmo das lojas de rua estão se ampliando. Se a jornada de trabalho diminuir, isso se transformará em aumento de preços.

PK: Há um imenso número de empresas no centro de Porto Alegre, por exemplo, com cinco ou seis funcionários. Imagine que o sindicato não permita que um balconista limpe uma vitrine.

RS: Veja bem, eu aqui recebo denúncias de joalherias que obrigam balconistas a limparem vitrines. Segundo o sindicato dos comerciários, não pode. Ora, muitas vezes o balconista faz isso porque ele sabe o que vende e deve ser mostrado. Então vai lá e arruma. Muitos se oferecem para fazer porque isso se reflete em comissões. Todos nós sabemos que os clientes “compram com os olhos”, sabemos da importância da vitrine. Houve outro caso de reclamação porque um balconista estava abrindo o caixa. É claro que os balconistas operam o caixa em pequenas empresas. Até para fidelizar o cliente, fazem todo o processo de venda. Aí, o sindicato se incomoda. E há os velhos problemas de não querer trabalhar em feriados, em domingos, com limitação de horários em véspera de feriados, etc. É complicado.

“Fazemos questão da segurança, que é uma necessidade também da sociedade”

Sul21: O comércio evoluiu mais nos shoppings ou na rua?

RS: Evoluiu no geral. O shopping criou um público seu que faz questão de segurança, estacionamento e de um leque maior de opções. Porém, a Rua da Praia, hoje, está com o metro quadrado valendo tanto quanto o do shopping. A Brigada, com nosso auxílio, deixou segura a principal rua de comércio de Porto Alegre. A Rua da Praia, é, hoje, tão procurada para o comércio quanto os shoppings.

Sul21: Tudo em função da segurança?

RS: Sim, e do fato de ser uma comércio interessante, aberto, de rua. O comerciante sabe o que eu quero dizer quando falo que é um “comércio gostoso” de se fazer. No Centro há uma enorme população morando em edifícios sem garagem. É uma grande população que caminha pela rua e, quando isso é feito com segurança, ela volta a consumir e a viver a rua. O Centro foi devolvido à população e isso fez com que ele começasse a reagir. A Brigada Militar é nossa parceira. Fizemos doações de telefones, rádios, reformamos sedes como a do 20º Batalhão no bairro Lindoia. Ou seja, há colaboração. E resultados. Na (rua) Fernando Machado também auxiliamos com uma reforma. Imaginem que aquela sede da BM seria fechada por falta de condições. A reforma custou R$ 15.000. Valeu a pena. Está ativa.

Sul21: E os pequenos centros comerciais dos bairro, têm evoluído da mesma forma?

PK: A segurança também aumentou na Tristeza, no Moinhos de Vento e nos bairros de menor poder aquisitivo. Não apenas a sensação de segurança aumentou, mas as estatísticas melhoraram. Muitos lojistas de shopping estão abrindo filiais nestes “centrinhos” com bons resultados.

Sul21: Mudando de assunto, e a inadimplência?

RS: O mês de novembro apresentou o menor número de devoluções de cheques para o mês desde 2005. Já no acumulado dos onze meses de 2010, a inadimplência com cheques chegou aos 1,77%, índice inferior aos 2,17% verificados em igual período de 2009. Desta forma, os cheques devolvidos diminuíram.

Sul21: E a do consumidor em geral?

RS: De acordo com a Serasa, o índice de inadimplência deve ficar próximo do verificado em 2009, que foi de 5,9%. Em novembro, ela se agravou levemente, mas é normal, sendo resultado do maior endividamento, do comprometimento da renda e do acúmulo de dívidas com as compras em datas comemorativas do varejo, principalmente o Dia da Criança.

Sul21: Além da substituição tributária, quais são as outras reivindicações do setor?

RS: Além da reformulação do sistema tributário para as empresas optantes do Simples, fazemos questão de segurança, que é, aliás uma necessidade de toda a sociedade.

“Os camelôs saíram da frente das portas de outros comerciantes e todos livraram-se dos roubos”

Sul21: E a informalidade?

RS: Houve vários lojistas que não compreenderam o fato do Sindilojas apoiar o camelódromo. Mas, com o tempo, tal postura revelou-se inteligente. São lojistas decentes, que pagam seus impostos. Eles saíram da frente das portas de outros comerciantes e todos livraram-se dos roubos. Quando estavam na rua, eles ficavam entre pequenos ladrões, contrabandistas e até traficantes. A vida deste pessoal melhorou, assim como as dos comerciantes estabelecidos. Nosso Centro melhorou.

Sul21: A sonegação permanece criativa?

RS: Muito. E ela nos prejudica, porque o governo muda regras a fim de cercá-la. Hoje, há pessoas fabricando material eletrônico, principalmente de telefonia, em casa, sem pagar IPI. E a venda sai por atacado, pela Internet ou por motoboy. Acabamos prejudicados e sem gerar impostos para o estado. A sonegação sempre arruma formas. É um problema grave.

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