Centro é a menina dos olhos dos lojistas

Que o Centro é o melhor local para se abrir uma loja de rua a maioria das pessoas concorda. O que poucas param para pensar é que neste bairro ocorre uma dinâmica bastante distinta dos demais pontos de venda…

Que o Centro é o melhor local para se abrir uma loja de rua a maioria das pessoas concorda. O que poucas param para pensar é que neste bairro ocorre uma dinâmica bastante distinta dos demais pontos de venda da Capital. Por ali passam todas as classes sociais. Um grande fluxo de pessoas transita pelas ruas – e quase sempre obedece o mesmo trajeto. Esta característica, que inclusive define o perfil econômico predominante dos transeuntes, é o que leva as redes de varejo a investir em mais de uma loja na região. É questão estratégica instalar duas ou mais unidades para alcançar os diferentes tipos de consumidores, ao mesmo tempo em que amplia e qualifica a rede de atendimento.

Com a ascensão das classes C e D, o Centro de Porto Alegre se consolida como atrativo para os lojistas, motivando novos investimentos em mais de um ponto naquela área. Prova disso é a rede Marisa, que recentemente inaugurou uma loja na Rua dos Andradas. Com esta, a marca soma três unidades separadas por algumas quadras. Na rua Voluntários da Pátria, a Marisa mantém outras duas lojas posicionadas praticamente lado a lado. Estabelecimentos separados por poucos metros de distância também são opção da Rainha das Noivas, Lojas Colombo, Rabush e por pelo menos mais uma dezena de redes. E é unanimidade: todas não perderiam a chance de abrir mais uma operação se a oportunidade surgisse.

“O consumo é bárbaro e o crescimento da classe C, principalmente, é um motivador para investir na região”, explica Luiz Roberto Rodrigues, superintendente da Rainha das Noivas. “Não está em nosso plano de expansão inaugurar outra loja no Centro, mas, se surgisse uma oportunidade em um ponto destacado, como na Voluntários da Pátria, iríamos aproveitar, pois o retorno é garantido”, ressalta o executivo da rede que possui lojas na Vigário José Ignácio, Dr. Flores e Andradas.

Segundo ele, a emergência das classes C e D e o alto fluxo de pessoas proporcionado pela proximidade dos terminais de ônibus e lotação tornam a filial da Voluntários da Pátria uma das líderes em vendas, superando até mesmo a operação da Rua dos Andradas. “O público que circula na Dr Flores, por exemplo, é diferente do da Vigário José Ignácio, que é mais popular e se assemelha ao da Voluntários da Pátria”, compara Rodrigues, explicando que o mix de produtos em cada loja é diferenciado e sazonal para atender ao perfil dos consumidores.

A estratégia da Rainha das Noivas também é utilizada pela Lojas Colombo. “Possuir mais de uma unidade no Centro é importante para a rede por uma série de fatores, um deles é efetivamente a diferença no fluxo”, concorda Thiago Baisch, diretor comercial de Vendas e Marketing da Colombo. O executivo chama a atenção para o transitar diário de milhares de pessoas pelo bairro que cruzam as ruas geralmente pressionadas pelo tempo. “Isso retrata outra característica do consumidor deste bairro”, destaca, apontando que é conveniente para o próprio cliente ter mais de uma alternativa de compras. “Além disso, precisamos de espaços maiores para atender com qualidade.” A Colombo opera com três lojas no Centro e Baisch admite que a empresa está à procura de mais um ponto na região. “Não dá para perder uma oportunidade como esta”, afirma.

A Rabush, do segmento de moda feminina, possui duas lojas no bairro, mas não descartaria novo investimento se houvesse espaço disponível. “Investiríamos novamente, pois vale a pena”, admite o diretor da marca, Alcides Debus. Segundo ele, o bairro suporta mais de uma operação, tem retorno parecido com o dos shopping centers e exige investimentos mais baixos. “Além disso, o Centro está sendo renovado, e está mais seguro andar por ali. A retirada dos camelôs do meio das ruas diminuiu muito o risco, especialmente os relacionados a pequenos furtos”, avalia Debus.

Demanda por pontos comerciais é sempre maior que a oferta

A procura por pontos comerciais no Centro de Porto Alegre é grande. O fluxo de pessoas colabora para que o bairro carregue a fama de liderar nas vendas do varejo. No entanto, para proprietários de estabelecimentos comerciais, buscar espaço para locação é como procurar agulha no palheiro. “A demanda de empresários interessados é enorme, mas a oferta é muito pequena”, confirma Cesário Teixeira de Oliveira, supervisor comercial da Prodomo Imobiliárias.

Segundo ele, a “menina dos olhos” dos varejistas é Rua dos Andradas, seguida pelas perpendiculares Dr. Flores, Vigário José Ignácio, Marechal Floriano, e as paralelas Salgado Filho e Otávio Rocha, entre as mais cobiçadas. “Não há lojas no mercado. E quando surge oportunidade imediatamente é locada”, diz ele, que reforça a grande procura no mercado por pontos próximos à Voluntários da Pátria, Marechal Floriano e Pinto Bandeira. O gerente de aluguéis da Auxiliadora Predial, Alexandre Arruda, conta que quando há interesse, os empresários procuram a imobiliária para tentar negociar trocas de pontos com lojistas menores. “Fazemos uma proposta para o ocupante, mas tudo depende de cada negociação”, resume o gerente, acrescentando que a expectativa é que, com a revitalização do Cais do Porto, aumentem as oportunidades, à medida que ruas menos movimentadas passem a concentrar mais fluxo de pessoas.

Mas se os pontos existentes estão indisponíveis, por que os empresários não investem, comprando terrenos? “O Centro deixou de ser atrativo como local de novos empreendimentos, porque não existem mais terrenos disponíveis em vias movimentadas.” A afirmação é de Gilberto Cabeda, vice-presidente de comercialização do Secovi-RS. Segundo ele, pela primeira vez em muitos anos, o bairro foi superado em oferta de imóveis avulsos para venda, sendo suplantado pelo Petrópolis, que há seis meses é o principal fornecedor do gênero. “Nos últimos anos alguns terrenos surgiram no Centro em função da demolição de casas e prédios, mas todos viraram estacionamentos e sem grande atração para investimentos pelo baixo fluxo de pessoas”, explica.

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