Varejo de eletros em Porto Alegre cresce no calor, mas revela consumo mais contido

Consumo migra para opções de menor valor, apesar da demanda sazonal aquecida.

O calor intenso registrado em 2026 teve impacto direto no comércio de eletrodomésticos em Porto Alegre, mas os dados levantados pelo Sindilojas Porto Alegre mostram que o aumento da demanda não se traduziu, necessariamente, em maior consumo de itens de maior valor.

Enquanto os ventiladores tiveram crescimento expressivo nas vendas, o mercado de ar-condicionado esbarrou nos limites do crédito, da renda das famílias e do custo da energia elétrica.

A pesquisa indica que 63% dos lojistas venderam mais ventiladores, consolidando o produto como a principal alternativa para enfrentar o calor. O desempenho reflete um movimento claro de substituição de consumo: famílias que cogitavam adquirir um ar-condicionado optaram por soluções mais baratas. Apenas 1% das lojas registrou queda nas vendas, o que reforça o caráter essencial do item em períodos de temperaturas extremas.

Os ventiladores de coluna concentraram a maior parte da demanda, evidenciando a busca do consumidor por produtos que não gerem custos adicionais, como instalação, e que ofereçam flexibilidade de uso. Já no segmento de ar-condicionado, 66,7% dos lojistas relataram estabilidade nas vendas, sinalizando que o mercado atingiu um limite de acessibilidade. O ticket médio elevado, a redução de limite nos cartões e o receio com a conta de luz seguem como barreiras relevantes.

Diante desse cenário, o varejo respondeu com descontos mais frequentes e margens reduzidas. Em 2026, 75,8% das lojas adotaram promoções, priorizando o pagamento à vista como estratégia para evitar custos financeiros e manter o giro de estoque. No ambiente digital, o WhatsApp se consolidou como principal canal de vendas, concentrando 64% das transações online, reforçando o papel do atendimento direto e da negociação personalizada.

Outro dado relevante é o aumento expressivo da preocupação com o consumo de energia, que passou a ser o principal critério de decisão de compra, superando até a potência dos aparelhos.

Para o presidente do Sindilojas Porto Alegre, Arcione Piva, o levantamento mostra um consumo mais defensivo. “O calor por si só não é suficiente para destravar vendas de maior valor. O consumidor está mais atento ao orçamento e faz escolhas possíveis dentro da sua realidade financeira. O varejo tem se ajustado, muitas vezes abrindo mão de margem, para continuar operando em um cenário de crédito restrito e custos elevados”, avalia.

Análise Econômica – Por Rodrigo de Assis, economista-chefe do Sindilojas Porto Alegre

Apesar da queda de 8,9% no preço dos aparelhos de ar-condicionado em 12 meses — frente a um IPCA de 4,3%, o que representa redução real do valor — as vendas de maior ticket não reagiram na mesma proporção. O limitador é o orçamento das famílias, não o preço.

Segundo a PEIC-RS, cerca de 84,6% das famílias gaúchas estão endividadas e 24,5% têm contas em atraso, o que restringe a capacidade de assumir novas parcelas. Nesse cenário, o consumo migra para alternativas de menor custo, como ventiladores, evidenciando substituição de bens duráveis de maior valor por opções mais acessíveis.

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